A língua a serviço da sociedade

Nesse artigo da Revista Globo, os seguintes dizeres:

Assim como a sociedade, a língua é uma entidade viva e está em constante modificação – não se encontra estática em um livro de gramática. A língua tem que estar a serviço da sociedade, e não o contrário. A norma dos cultos, que, hoje, é considerada a padrão, amanhã, pode não o ser mais.

Quer dizer, sendo uma entidade viva, parece que por ela falhar em impor suas regras formais – ou em ter suas regras impostas por pais, professores e sociedade – de tempos em tempos tem seu rigor aliviado e deve se adequar às regras informais, coloquiais, incentivada pela infinidade de momentos em que a expressão se torna mais importante do que suas restrições.

Pensando pelo lado “maldita inclusão digital que nem sabe escrever e já sai escrevendo no Face”, isso é péssimo, mas, pensando no dia-a-dia, quando lemos dezenas de artigos e escrevemos outras dezenas, seja na internet, na redação, ou mesmo mentalmente, vemos que tudo está a favor de uma linguagem flexível e compreensível, tanto para o cidadão de pensamento simples como para um doutor. Isso se repete sempre e dada sua ciclicidade não tão óbvia – a não ser que você tenha lido dezenas de edições de livros de gramática da língua portuguesa – talvez muito do que consumimos e produzimos já fora considerado gramaticalmente errado.

Portanto, pode parecer estranho, mas em um futuro bem próximo – observada a forma como os brasileiros estão escrevendo – as seguintes mudanças na língua portuguesa poderão ser mais aceitas, senão oficializadas:

Desobrigação do R ao final do verbo através da transformação da palavra em oxítona

Vamos lá toma umas cervejas e conversa um pouco

Aceitação do pronome oblíquo “mim” antes de um verbo

Antes eu não conjugava os verbos de forma correta. Agora mim pode conjugar

Flexibilização da concordância nominal

Eu fui comprar uns jogo no Centro

Advérbio de intensidade mais como conjunção adversativa mas

Escrevo assim mais nem ligo

Nesse momento eu penso em… “cruzes!”, mas não importa. Eu estou longe de escrever bem, portanto, longe de ter razão em criticar quem não escreve seguindo todas as normas.

Apresentando: HaavokIPC

Então você pega um projeto de sistema feito em PHP 4 (um dos ~7% de sites que ainda usam essa versão) e precisa usar algum componente que só funciona no PHP 5. Você pensou em um web service local em uma segunda instância do Apache rodando PHP 5, mas dadas as características do ambiente onde a aplicação roda e da dificuldade de fazer o deploy do segundo servidor, você foi proibido pelo chefe de fazer isso. Você pode também executar código entre diferentes versões de PHP ou mesmo na mesma versão, mantendo uma parte da sua aplicação em uma sandbox.

Para isso há várias soluções, dependendo dos requisitos. O HaavokIPC dá conta destes: chamadas síncronas a funções ou métodos de objetos/classes; uso dos dados retornados através de callbacks; uso em parte da aplicação que não exige alta performance. Ele não usa servidores ou conexões, ele executa o binário do PHP e se comunica com ele através de um arquivo serializado ou persistência. Os objetos responsáveis pela persistência e serialização são plugáveis e novos objetos podem ser desenvolvidos sem perda de tempo, apenas respeitando a interface. Por enquanto estão disponíveis os seguintes objetos de persistência, chamados de Drivers: File, Memcache e Shm, que usam, respectivamente, um arquivo, um servidor do memcache ou shared memory de ambientes *nix. Para a serialização, estão disponívels os Serializers Default, que usa as funções serialize e unserialize nativas do PHP e Msgpack, que usa a extensão msgpack.

Ele foi desenvolvido para ser compatível com boa parte das versões de PHP entre 4 e 5.

A documentação ainda não está madura e há muito a se fazer no código em termos de performance e arquitetura, como todo bom projeto experimental.

O código está disponível no GitHub -> HaavokIPC/PHP

Update 25/11/2011
Estou portando o HaavokIPC para Ruby e isso me obrigou a fazer mudanças na arquitetura, a fim de tornar a configuração e a conversa entre front end e back end mais fácil, seja de PHP para PHP, PHP para Ruby ou de Ruby para PHP. Criei um novo repositório para este port, disponível em HaavokIPC/Ruby. Mais pra frente espero portá-lo para outras linguagens.

Update 30/11/2011
O desenvolvimento do HaavokIPC em Ruby está congelado enquanto trabalho no refactoring da versão em PHP, com alterações mais profundas do que simplesmente tornar sua configuração mais flexível.

Provocações + Gabações

Vou parar de me gabar por ter um smartphone, um bom computador, um bom trabalho com um nobre título. Espero que todos que possuem um bom tênis, um bom carro, o melhor smartphone ou o melhor sonho material façam o mesmo. Vou começar a me gabar por ter um teto, água potável, esgoto encanado, comida na mesa e a oportunidade de sair de casa sem medo de levar um tiro de lugar nenhum. Porque, afinal, o sentido da “gabação” é se sentir superior ao indivíduo ao lado por ele não ter o que você não tem. Mas ora, vejo todos os dias pessoas no metrô com seus bons tênis e smartphones doentemente se comparando aos que já tem, sendo esse ato correspondido pelo indivíduo ao lado. Portanto, não há mais sentido em tal tipo de gabação. Todos já chegaram ao topo com seus bons computadores e bons trabalhos de nobre título. Agora chegou a hora de fazer a gabação valer a pena. Vamos nos gabar para os que vivem abaixo da linha da pobreza, para os que comem palma todos os dias e consideram um raro calango uma iguaria chique para seus padrões. Vamos nos gabar para quem tem que fazer suas necessidades fisiológicas em um buraco no meio da terra – junto a outras 100, 200 pessoas. Vamos nos gabar para aquele garoto obrigado pela mãe a pedir uns trocados no farol e pra sua irmãzinha que está se prostituindo a duas quadras.

Mais importa exibir nosso mundinho cada vez mais fechado em uma vitrine mentirosa.

Doentes.

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