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Diálogos Mentais I

Eu pensei em criar um Tumblr só pra isso, depois um outro blog aqui no WordPress e acabei desistindo da idéia. Que este seja meu único blog e pronto!

Era uma quarta-feira de inverno quente. Ele chegou no Tucuruvi após ficar 20 minutos em pé em uma lotação. O formigueiro humano se extendia desde as catracas do metrô por alguns metros do terminal  – ou seja lá qual for o nome daquilo que o faz trocar a calçada pela rua para chegar aos guichês. Desistiu de pegar o trem e resolveu pegar um ônibus que faz um tour por São Paulo, mesmo sabendo que ele demoraria mais de 1 hora e meia para chegar ao seu destino. Então embarcou, para visitar Santana, Casa Verde, Barra Funda, Consolação, Paulista e chegar muito atrasado ao trabalho.

Passou alguns minutos em pé atrás da catraca até que viu um assento livre na janela e decidiu passar. Educadamente pediu a moça que lhe desse passagem (ela estava sentada perto do corredor), colocou os fones de ouvido e começou seu filosofem diário e a implicação com as suas reflexões, principalmente acerca do fato imutável:

– Chegarei pelo menos 1 hora e meia atrasado. Vou enviar um e-mail avisando o chefe.

Já no primeiro terço da viagem, depois de Santana, uma garota entra. A falta de assentos fez com que ela ficasse em pé e ao lado dele. Ela era diferente, gordinha, tinha lá seus 23 anos, um senhor olhar e um senhor corpo. Ele a fitou durante boa parte da viagem. Ela se sentou na frente dele, em um banco cuja altura era menor. Ele continuou fitando, mas agora o objeto da visão era o reflexo dela no vidro. Fitou até ela não aguentar mais. Então, a senhorita percebe o olhar insistente dele, vira para trás e exclama:

– Tá olhando o quê?

A vida não lhe ensinara a dar olhares tão constantes como esse, sempre se submetendo ao costume do olhar oblíquo, rápido e de média intensidade, talvez tímido mas nunca dissimulado. Pensou em ficar pequeno e sentir vergonha por ter olhado uma mulher. A mesma vergonha que sentia aos 14 anos pela estranheza da puberdade dos amigos que realizavam esse ato muito bem.  Mas aquela pergunta merecia uma resposta à altura, como jamais respondeu. Pensou:

– O que perco falando o que penso?

A partir daí, o chamado “freio moral” – mecanismo psicológico que impede a todos os humanos de serem eles mesmos, considerarando uma série de premissas e convenções sociais antes de qualquer ação, claramente tornando-os infelizes –    foi solto. A boca acompanhou a tendência e não se limitou a ficar fechada como de costume. Arrancou os fones de ouvido e falou:

– Você é linda.

Sua expressão muda:

– O quê?

O tom da voz aumenta!

– Você é linda!

Ela responde:

– Que xaveco furado! Você é louco. Não sou linda, eu sou gorda. E pare de me olhar assim!

Claro que com uma resposta dessas ele não poderia ficar calado. Já falou da primeira vez, logo, não há motivos para manter seus 20 e poucos anos de timidez.

– Moça, não estou te xavecando.

E quase sem intenção, levanta a mão direita para que a aliança de compromisso seja notada.

– Não acho que você é gorda. Acho que você é muito bonita.

A expressão dela mudou novamente e os dois se estranharam. Uma certa nuvem de apatia os envolveu, talvez pelo choque; dela por um elogio direto e dele por uma ação inédita ou mesmo resultado da compressão súbita da timidez. Ela exibe uma feição de esnobe revolta e tenta interrompê-lo,  mas ele não cessa:

– Mas tudo bem, se você tem complexos e acha que não merece ser elogiada então eu tenho mesmo é ficar quieto.

Os fones de ouvido são colocados de forma rabugenta e ele se atém ao seu assento, sentindo um misto de raiva, vergonha, confusão e orgulho. Voltou a ser o “ele” que sempre foi em 20 e tantos anos: frio e desconectado. Voltou a sentir ódio de quem mora em São Paulo e da incapacidade de qualquer pessoa de ouvir boas palavras sem devolver más palavras.

Ela? Está atônita e muito mais confusa. Sabe que será difícil encontrar outro estranho tão direto e sincero com ela, que não se limite a falar a verdade somente com sólidos laços de amizade, como ele foi: diferente. Ela sabe que utilizou palavras não-tão-felizes e com a resposta e ação dele, qualquer possibilidade de diálogo foi rechaçada. Desce no próximo ponto.

Não houve maldade, mas talvez não fosse um bom dia para nenhum dos dois. E eles seguem seus caminhos.

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  1. 07/07/2010 às 23:41

    Interessante… a vida em São Paulo é sempre mais cinza e morta do que parece ou do que gostaríamos. Quanto mais (gente), pior. Não dá mais pra ser gentil e não ser confundido com um ladrão, depravado ou, simplesmente, retardado.

  2. 08/07/2010 às 08:13

    Chega a ser engraçado de imaginar a cena, mas é assim que funciona, se você elogiar elas pensam que você quer simplesmente com~e-las, se ninguém nunca der um elogio é por que são feias, complexo por complexo eu prefiro continuar com meu fone de ouvido.

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